O terceiro dia do curso que acompanhamos na Wooden Boat School foi um dos dias mais corridos da semana e foi marcado pelo início da construção propriamente dita do barco! Estávamos colocando as coisas no lugar e vendo o barco nascer. Para que isso fosse possível, fomos então colocados a desempenhar uma das tarefas mais comuns na oficina: chanfrar! Tudo deve ser chanfrado para poder ser colocados em seus respectivos lugares no barco. Faz sentido, afinal, tudo o que está a bordo é curvo, inclinado, angulado. Para todas essas angulações, desde a posição das cavernas até o “flare”, que é a inclinação do costado, deve prever esses encaixes entre as peças.

Neste dia em particular, com o espelho de popa cortado e montado e também todas as cavernas já coladas, era preciso apenas chanfrar o encolamento entre o costado e o fundo.  Chanfraríamos as longitudinais do fundo, que correm justamente na quina entre o costado e o fundo. Com isso feito, seria possível colar o fundo aos costados. Mas para isso, foi necessário nivelar o conjunto de costados.

Nivelar era uma tarefa interessante. Até então o barco nascia sem um picadeiro, uma base sólida e nivelada. Agora, para colarmos as balizas no lugar, era necessário nivelar e então instalar o fundo, que enrijeceria o casco. A primeira etapa era colar as balizas em seus respectivos lugares ao longo do comprimento do barco. Cada uma tinha um número correspondente à sua posição. Foram abertos escalopes, ou seja, buracos para que as balizas já chanfradas encaixassem-se nos dentes formados pelas longitudinais coladas aos costados. Então, impregnava-se epóxi tanto nas balizas quanto nos costados e apertava-se com parafusos, que funcionavam aí como grampos, apenas para ajudar a colar, sendo retirados depois e substituídos por parafusos cônicos de inox.

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A montagem do barco começa colando e aparafusando as cavernas no lugar (Fonte: próprio autor)

Na hora de alinhar essa montagem para instalar o fundo, pusemos o conjunto sobre cavaletes e tiveram de ser usadas fitas para aproximar os costados e dar a curva à forma do casco, fechando a proa e a popa no lugar. Afinal, a proa tinha que encostar na roda de proa para ser colada e a popa tinha que ser aparafusada ao espelho de popa. Ufa! Foi cansativo, mas deu tudo certo. A colagem do fundo ficou para o dia quatro, esperando que esse conjunto compensado – epóxi secasse.

Foi necessário forçar os costados a se encontrarem na proa (Fonte: próprio autor)
Foi necessário forçar os costados a se encontrarem na proa (Fonte: próprio autor)

Saí da oficina e fui ao hangar dos barcos. Na parte da escola que administra os barcos para uso dos alunos, há um fundeadouro de barcos típicos, antigos e novos, apenas esperando para serem levados para uma velejada ao entardecer. A combinação é que até o pôr do sol todo aluno tem direito de velejar no barco que quiser. Então lá fomos nós escolher um barco para “testar”. Fazia um sol alto e incrível às cinco da tarde. Verão no hemisfério norte. Escolhi um barco chamado Shellback, um projeto de construção similar a este que estávamos construindo durante a aula, mas com um casco trincado colado. No entanto, com um pouco mais de 11 pés de comprimento e uma armação em lugsail, a velejada acabou não sendo muito proveitosa, ao menos para mim, que fiquei meio desconfortável dentro do pequeno barco que caturrava e adernava a cada movimento meu a bordo. Saí desta velejada sabendo ao menos que não seria esse o projeto que eu deveria trazer ao Brasil para reproduzir nas futuras oficinas de construção naval do BRANA.

O custo desse pôr do sol são muitas horas na oficina, chanfrando, lixando... (Fonte: próprio autor)
O custo desse pôr do sol são muitas horas na oficina, chanfrando, lixando… (Fonte: próprio autor)

Voltei ao hangar remando e percebi que também não seria este um bom barco remador. No fim das contas, resolvi voltar meus esforços para tentar encontrar um outro barco que fosse relativamente fácil de construir e que fosse um bom velejador e quem sabe até um bom remador. Eu veria, ao longo dos outros dias na Wooden Boat School, que esta não é uma tarefa fácil e encontrar um barco para se construir rapidamente e que fosse fácil de replicar demandaria muitas outras saídas em muitos dos pequenos barcos que tínhamos à disposição no campus.

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