BRANA passou uma semana na pequenina cidade de Brooklin, no Maine, nordeste dos Estados Unidos, para vivenciar a experiência de uma aula de construção naval de um barco em madeira que é totalmente construído em apenas uma semana! Quero dizer, construir um barco é geralmente uma tarefa que demanda dedicação, muito trabalho, foco, e tudo isso em um planejamento que pode variar entre 500 e 3200 horas de trabalho, ou seja, de três meses a 4 anos de trabalho para barcos de pequeno a médio porte na construção amadora. Portanto, construir um barco todo (sem acabamento, claro) em apenas uma semana soa um tanto quanto ousado, sobretudo se falamos aqui de uma aula para uma turma de leigos.

O que acontece na Wooden Boat School, que foi tema do nosso último post, é resultado dos 35 anos de experiência que a escola acumulou ao longo da sua existência, reunindo os melhores profissionais da construção naval daquele país e do mundo, para ministrarem aulas de construção e cursos afins em suas áreas, entre elas: construção de barcos específicos ou de projetos de suas próprias autorias, cursos de técnicas de construção tradicionais em madeira, entre ouros 70 cursos.

BRANA acompanhou a aula ministrada pelo instrutor Bill Thomas, um experiente construtor naval, projetista de caiaques e pequenas embarcações em madeira e compensado naval. A aula era a de Introdução à Construção Naval e tinha um quórum de 12 alunos. No primeiro dia do curso, fomos apresentados ao projeto das duas embarcações que construiríamos (ok, não apenas um, mas dois barcos seriam construídos em uma semana!). Um deles era um barco de 12 pés com fundo chato, projeto de Karl Stambaugh chamado Bayskiff. O outro projeto era um barco do tipo “pram”, que em português refere-se a um barco auxiliar, chamado Mischief e projetado pelo próprio Bill para ser construído a partir de um kit de compensado, um método teoricamente mais simples do que a construção em casco trincado do Bayskiff.

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Quadro de tarefas mostra o planejamento do trabalho em cada dia. Fundamental! (Fonte: próprio autor)

No primeiro dia, seguiu-se uma apresentação das ferramentas da oficina e do estoque de madeiras que a escola tinha à disposição. O objetivo era familiarizar os alunos com a infraestrutura da escola, mas também deixar bem claro que se trata de um ambiente potencialmente perigoso. Operar as máquinas estacionárias de grande porte, como a serra de mesa e a tupia ou a desengrossadeira, foram os momentos mais relevantes, justamente por causa dessa preocupação com a segurança de todos os alunos.

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A serra de mesa: uma operação perigosa mais segura com o “saw stop” (Fonte: próprio autor)

De volta à oficina em que construiríamos os barcos, Bill começou a mostrar a primeira técnica de construção naval relevante para os aprendizes:  aprender a afiar as ferramentas manuais, como a plaina. Usando aparatos de marceneiro para aumentar a precisão do serviço, Bill mostrou que o ângulo correto para o fio da lâmina de uma plaina deveria ser de 27 graus. Daí decorreu uma discussão um tanto quanto filosófica sobre a angulação dos dois fios de corte que a lâmina na verdade tem, mas resumidamente, o importante é que as ferramentas de corte estejam sempre bem afiadas.

Em seguida, nosso instrutor mostrou que é usando a técnica de chanfro que se pode aumentar o comprimento dos painéis de compensado que comporiam as chapas de costado do Bayskiff. Esse barco tem um costado formado por compensado naval de 9 milímetros. Para que o chanfro de união fosse bem feito, seria necessário chanfrar cada extremidade em um comprimento oito vezes maior que a espessura, no caso, 72 milímetros de comprimento.

Sequencia de união dos painéis (Fonte: próprio autor)
Sequencia de união dos painéis (Fonte: próprio autor)

O interessante é que, de construção mesmo, quase nada foi feito nesse dia, o que fez com que a ansiedade de ver o barco pronto em uma semana ficasse ainda adiada até a manhã seguinte, quando seriam construídas as balizas (ou estações transversais) da estrutura do Bayskiff (o outro barco nem havia começado a ser preparado!)

Diante de tamanho desafio, restava acreditar na experiência do instrutor e na animação da turma pra terminar esses barcos. O relato do segundo dia também fica adiado pro próximo post, exatamente pra dar aqui a mesma sensação do que sentimos naquela semana. Fique ligado e saiba como vai terminar essa história! 😉

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